EM BUSCA DO EU - UMA JORNADA INTERIOR
AS FASES ALQUÍMICAS NO INDIVÍDUO
De modo geral as fases do processo alquímico representam etapas de transformação psíquica no indivíduo, representam como se fossem um processo de iniciação, em outras palavras, representam etapas que o indivíduo terá de enfrentar para que partes de sua personalidade total que são inconscientes tornem-se conscientes. Além do mais, é durante o processo de transformação que o indivíduo se apercebe do centro da personalidade total (este novo centro não coincide com o "complexo do eu - o ego"), esse novo centro é um plano intermediário entre o "eu consciente" e o "eu inconsciente"; em várias tradições esse plano intermédio foi designado como sendo o verdadeiro homem interior, quando o indivíduo percebe e compreende a existência desse novo centro da personalidade total ele tornar-se uno consigo mesmo, alcança aquele estado em que se torna uno com a alma do mundo. (anima mundi).
[...] então ela (Opus Alquímica) decerto deve ser entendida preferivelmente de modo figurado, e isso como simples processo psíquico de crescimento e de transformação;... (Mysterium Coniunctionis 2)
A PRIMEIRA FASE (NIGREDO)
A Fase da Nigredo, por exemplo, representa o início do opus, é a etapa que corresponde a primeira união entre os opostos, ou seja, a tentativa de união entre a parte consciente e inconsciente da personalidade do indivíduo. Essa primeira união ou hieros gamos (casamento sagrado) possui um caráter nefasto, uma vez que, a “consciência do eu” se coloca em estado de negrura, ou melhor dizendo, em um estado de inconsciência conjuntamente com a parte inconsciente da personalidade, além do mais, essa primeira tentativa de união há muita resistência da parte consciente consequentemente pelo medo que se tem do inconsciente (pois representa algo que desconhcemos sobre nós mesmos)
É nessa primeira união que o indivíduo terá a oportunidade de conhecer o lado obscuro de sua personalidade, tudo aquilo que escondemos dos outros, tudo aquilo que evitamos ao máximo olhar, as profundezas de nossa alma.
Para os alquimistas e para Jung a fase da Nigredo também corresponde o confronto com a própria sombra, aquela parte da personalidade que rejeitamos (por não condizer com a imagem ideal que criamos de nós mesmos ou da persona), que ignoramos no processo de desenvolvimento da consciência e no processo de adaptação ao ambiente imediato e à coletividade.
A Nigredo - confrontação com o sombra causa primeiramente um equilíbrio morto ou uma parada (estagnação) que impede decisões morais, e torna ineficazes as convicções, e mesmo as impossibilita. Tudo se torna duvidoso, e por isso os alquimistas denominavam adequadamente esse estado inicial como nigredo (negrura) tenebrosias (escuridão), caos e melancolia. (Mysterium Coniunctionis 2)
O Símbolo do dragão, da serpente e do leão verde (Uma etapa perigosa do processo de transformação)
Um símbolo que nos chama bastante atenção e nos causa até um receio, um medo é o símbolo do dragão ou serpente. Presente em várias mitologias, como em Tiamat na mitologia suméria e babilônica (anterior a 1200 a.C, há informações de que há uma versão ainda mais antiga, anterior a 1792 a.C.).
Na mitologia egípcia existe a grande serpente Apófis, e mesmo no inferno cristão existe a "antiga serpente" (isto é o diabo).
Quase sempre esse monstro representa o caos primordial, ou mesmo uma forma ctônica, o mundo inferior ou inferno. Se transpusermos esse símbolo para o contexto psíquico individual, como os alquimistas fizeram sem ter consciência de que estavam projetando, o dragão ou a serpente representa aquela camada da alma que ainda não foi transformada em consciência e ainda permanece em seu estado indiferenciado primitivo, animalesco, e que o indivíduo sente muitas vezes como emocionalidade passional.
Os conteúdos inconscientes são carregados de afetos primitivos. Quando o indivíduo se confronta com a parte de sua alma que é obscura (o inconsciente ou a sombra) toda essa carga de energia instintiva que antes estava escondida nas projeções, é como se agora voltassem contra o próprio indivíduo, é como se o indivíduo passasse a se conhecer a partir do seu estado inconsciente, instintivo, animalesco.
Essa fase é bastante dolorosa (faz parte da nigredo), pois aqui já começa um retraimento das projeções (não há mais bode expiatório) e o indivíduo se defronta com o aspecto tenebroso da alma instintiva.
Por que é tão dolorosa essa fase? porque como Jung diz, gostamos de pensar que somos apenas bons, civilizados, belos etc., estamos identificado apenas com o aspecto luz da consciência, os aspectos sombrios e mesmos não desenvolvidos (que ficaram num estado de indiferenciação, inconsciência arcaica) se quer temos uma noção que eles fazem parte da nossa constituição psíquica (de nossa personalidade total) nem se quer sabemos que são eles que nos influenciam desde nossas entranhas interferindo em nossas percepções de mundo.
Esse aspecto inferior da alma humana é representado pelo dragão ou a serpente ou mesmo o leão verde, em outras palavras representa uma etapa perigosa do processo de transformação.
É essa parte de nossa alma que deve ser sacrificada, é ela que aparece em algumas tradições, mitos antigos como símbolo de um animal que precisa ser sacrificado.
O velho dragão representa um ser primitivo que mora nas cavernas da terra, isto é, em linguagem psicológica, uma personificação da alma instintiva, que geralmente vem simbolizada por répteis. Parece que com isso as concepções alquímicas querem exprimir que o próprio inconsciente prepara o processo da renovação. - Mysterium Coniunctionis 2
[118] O dragão, isto é, a serpente representa a inconsciência primordial, pois este animal – como dizem os alquimistas – gosta de permanecer “in cavernis et tenebrosis locis”: Esta inconsciência deve ser sacrificada. Só então poder-se-á encontrar a entrada para a cabeça, isto é, para o conhecimento consciente. - Estudos Alquímicos
A consciência coloca-se numa situação perigosa pela descida ao inconsciente; aparentemente, é como se ela se extinguisse. A situação é a do herói dos primórdios devorado pelo dragão.- Psicologia e Alquimia