Se comparassemos nossa natureza e nossa vida psiquíca com o Oceano Atlântico nos depararíamos com profundidades em nossa constituição psíquica tão obscuras para a compreensão humana quanto a obscuridade que reina a mais de 3800 metros abaixo da superfície.
As águas geladas do Oceano Atlântico que são encontradas nas regiões polares e nas profundezas, onde a luz solar não penetra e as baixas temperaturas se mantêm constantes, representariam um estado psíquico em o pequeno "eu consciente" praticamente deixaria de existir, pois se dissolveria, em outras palavras, perderia os limites de sua individualidade e mergulharia em uma profunda dissolução na alma primititiva coletiva.
Segundo o que Jung nos ensina, se mergulharmos profundamente dentro de nosso si-mesmo, não vamos nos deparar com um "eu iluminado" "o eu superior", mas vamos nos defrontar com essas camadas mais profundas de nossa personalidade como um todo, vamos nos deparar com essa alma coletiva instintiva (que na Idade Média era chamada de Anima Mundi - a Alma do mundo), e que hoje é chamada de Inconsciente Coletivo).
Segundo Jung , a natureza instintiva do ser humano é, em si mesma, essencialmente coletiva (ela é um aspecto ou é a própria - anima mundi). Essa natureza instintiva representa aquelas primeiras camadas de nosso eu psíquico (que ainda são inconscientes) as quais foram representadas pelos alquimistas, bem como em mitos antigos pelo dragão ou a serpente.
Jung também chamou esse estado psíquico das profundezas de “estado de redução”. Na simbologia alquímica esse estado foi representado na visão de Arisleu no qual Beya (representa o inconsciente) abraçou a Gabricus (a consciência do eu-ego), nesse abraço ela absorve completamente a natureza dele e o divide em pedaços indivisíveis.
Suspeito que esse estado de dissolução é também uma fase do processo de transformação. Ele seria aquele "retorno ao estado original" da qual Jung fala, ou aquele estado em que o Mestre Eckhart designa como o estado em que a alma nasce em Deus. O "eu" tal como o conhecemos é invadido pelas forças dinâmicas do inconsciente, ficando em um estado de indiferenciação com o inconsciente coletivo.
Esse estado das profundezas é paradoxal, pois ao mesmo tempo que ele é um estado da alma primordial, um estado latente de novas possibilidades é também onde reside o perigo da consciência do eu ser engolida pelo inconsciente.
Esse estado de profundidade é onde os arquétipos (em suas formas arcaicas) podem dominar o "complexo do eu". Isso era representado pelo mito do dragão-baleia que devora o herói.
Mas é nessas profundezas onde reside a sabedoria da mãe (mãe aqui no sentido figurado do inconsciente de onde a consiência sempre nasce ou renasce) "Ser uma só coisa com ela (com a mãe o inconsciente) confere aos sentidos a percepção de coisas mais profundas, das imagens e das forças primitivas que estão na raiz de todas as realidades e constituem a matriz que as nutre, conserva e cria." - Símbolos da Transformação
"A consciência coloca-se numa situação perigosa pela descida ao inconsciente; aparentemente, é como se ela se extinguisse. A situação é a do herói dos primórdios devorado pelo dragão." - Psicologia e Alquimia
O indivíduo só consegue descer a essas profundezas de sua alma quando desconfia de suas projeções, então aí há um verdadeiro confronto com o inconsciente em seu aspecto obscuro e tenebroso, cujo o aspecto da personalidade inconsciente chamado "sombra" é apenas o começo.
"[...] ( a mortificatio do dragão) é pois a primeira etapa perigosa e venenosa da anima (mercurius), libertada da prisão na prima materia..." - Mysterium Coniunctionis 1
O indivíduo deve buscar ajuda profissional, ou se for autodidata deve procurar ler, buscar em material escrito a base obejtiva de tais experiências do inconsciente. Se o indivíduo não conseguir assimilar os contúdos do inconsciente (as percepções que ele está tendo das profundezas do seu si-mesmo) e como esses conteúdos são carregados de energia psíquica instintiva, pode mantê-lo enrredado (muitas vezes num estado mórbido) por muito tempo no mundo inferior, no mundo dos mortos.
Mas aquele que vence o dragão também vence a morte.
"Que o enredamento tenha justamente a aparência de uma psicose provém do fato de o paciente integrar o mesmo material da fantasia, do qual se torna vítima o doente mental, porque não o pode integrar, mas é devorado por ele. No mito o herói é o que vence o dragão, e não exatamente o que é devorado por ele. E, no entanto, os dois têm de haver-se com o mesmo dragão. O herói também não é aquele que nunca se encontrou com o dragão nem aquele que, tendo-o visto uma vez, afirma depois nada ter visto. Da mesma forma descobre e ganha o tesouro, “aquela preciosidade difícil de conseguir”, somente aquele que ousa a confrontação com o dragão e não perece. - Mysterium Coniunctionis 2
Na representação acima, temos o consciente na superfície, o inconsciente pessoal (sombra) como uma segunda camada do "eu" e numa terceira camada mais profunda a alma coletiva (anima mundi). Como Jung nos ensina a personalidade total do indivíduo não é somente o "eu-ego consciente" mais inclui (abrange) o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. O fato de o indivíduo não compreender sua totalidade psíquica o mantém preso às projeções das camadas mais profundas de si-mesmo.
Na figura acima temos à direita a Lua (o inconsciente) personificada em Beya e o Sol (o consciente) personificando Gabrico.
A descida ao mundo inferior, ao Hades é um símbolo da descida ao inconsciente, às profundezas de si-mesmo.